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Calote na cultura 18/06/2011

Posted by Clotilde Tavares in Sem categoria.
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Hoje abri o jornal Tribuna do Norte e li a matéria sobre o calote dos órgãos públicos na área da cultura, duro calote imposto aos artistas que trabalharam no Festival Agosto de Teatro, (realizado em outubro de 2010) e no Dia da Poesia (14 de março de 2010). O primeiro é um calote estadual, da alçada da Fundação José Augusto. O segundo, um calote municipal, de responsabilidade da Funcarte.

Aí eu me lembrei do ano passado, quando Ivonete Albano me convidou para dar uma oficina nesse mesmo Festival Agosto de Teatro. Pedi um tempo para pensar, escaldada que estava de calote idêntico que o Governo da Paraíba vinha ensaiando comigo, porque eu havia dado uma oficina no Fenart (Festival Nacional de Arte) em João Pessoa no mês de maio e ainda não tinha recebido o pagamento.

Eu acho um absurdo essa lógica de que “trabalhar para o Estado é assim mesmo, demora-se muito a receber”. Se a burocracia para o pagamento é grande, por que não diminuem o trâmite, por que não agilizam? Quando querem, quando é do interesse deles, num instante fazem tudo depressinha. Pois é.

Então, voltando ao tema, quando eu estava para decidir se iria dar ou não a oficina no Festival Agosto de Teatro chegou um convite para fazer um trabalho em São Paulo, na mesma época. Falei com Ivonete Albano, coordenadora do Festival e ela foi muito gentil, me dispensando do compromisso. Aí lá fui eu para Sampa, onde trabalhei, recebi meu dinheiro e escapei de tomar esse calote monstruoso que envolve não somente os artistas locais como gente de outros estados e com nome conhecido, como Amir Haddad e Kil Abreu.

Essas duas histórias de dívidas não pagas que são o tema da matéria da Tribuna do Norte são apenas duas histórias, porque existem muitas, inúmeras. Você, que é da cultura e está lendo este post, deve conhecer pelo menos uma história de dívida não paga.

O fato é que o poder público do Rio Grande do Norte – e quero dizer Governo do Estado e Prefeitura de Natal – não respeita os seus artistas, não respeita os trabalhadores da cultura e não respeita o povo para quem nós produzimos.

A incompetência da gestão pública na área da cultura neste Rio-Grande-Sem-Sorte percorre amplo leque de inoperância, incúria administrativa e percepções equivocadas da atividade cultural. Vai desde a ausência de uma política cultural, passando por um plano de aplicação dessa política – que não existe – com dotação orçamentária que viabilize esse plano até a falta de respeito pura e simples como vemos nas entrevistas que dirigentes culturais concedem aos jornais.

Confesso que hoje de manhã, ao abrir o jornal, fiquei triste de ser artista e de morar no Rio Grande do Norte.

 

Nota: O Governo da Paraíba me pagou o cachê do Fenart em outubro de 2010, quase às vésperas do segundo turno das eleições, mas isso só depois que eu botei a boca no trombone pelo twitter e fiz uma zoada tão grande que eles acharam melhor me pagar. Sei que outros grupos e artistas que trabalharam não receberam até o dia de hoje.

 

Beco da Quarentena, resistência cultural 02/05/2011

Posted by Clotilde Tavares in Sem categoria.
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Beco da Quarentena, ontem à tarde.

“Então, o beco não mais termina em aspereza,

Amanhece puro, como de surpresa.”

Sanderson Negreiros

Ontem eu participei de um evento que me deixou alegre, cheia de energia e esperançosa em relação à força da cultura do povo natalense: a lavagem do beco da Quarentena.

O beco é uma travessa de uns 25 metros que comunica a rua Frei Miguelinho com a rua Chile. Eu gosto de dizer que o beco quase comunica o Centro Cultural DoSol com a Casa da Ribeira, sendo essas duas iniciativas os baluartes principais de resistência e vida do bairro naquele trecho. A prova disso é que ambas comemoram neste ano dez anos de atividade.

Mas voltando ao Beco, a história de dele pode ser lida no blog de Sandro Fortunato.

É um lugar cheio de lixo, imundo, enlameado, esburacado e soturno, por onde muita gente passa de dia para encurtar caminho mas de noite a história é outra e não é qualquer um que tem coragem de se aventurar na travessia.

Ontem, na grande festa que colocou todos os espaços da Ribeira funcionando e lotados de gente, o beco voltou à vida, ressuscitado e renovado por uma celebração poderosa, invadido por grupos de percussão e por artistas de todos os naipes. Vi por lá as mulheres do Rosa de Pedra, vi Danúbio do Pau&Lata, vi grupos de afoxé e seus mestres. Esse cortejo saiu do Buraco da Catita, arrastado pela vibe poderosa dos tambores; babalorixás cantavam suas melodias rituais e as divindades vieram todas nesse final de tarde, nos arrastando pela rua das Virgens, atravessando a Tavares de Lira, entrando na frei Miguelinho até a esquina do Beco, onde nos aguardavam os performáticos bailarinos da Companhia GiraDança.

Naquela hora, os tambores pararam e o canto em língua africana subiu aos céus, numa celebração linda, que arrastou não somente os artistas mas o público que estava também misturado com o cortejo. Quando eu vi aquele beco onde já se passou tanta tragédia, onde já reinou a imundície, a desordem, a prostituição, que é usado como banheiro público e onde os seres humanos no último estágio da degradação vão se drogar, pois bem, quando eu vi aquele espaço iluminado, banhado com água de cheiro e perfumado com talco, com o cântico poderoso e ancestral se elevando e trazendo as energias da Paz, da Arte, da Alegria e da Cordialidade, eu senti que algo novo está acontecendo nessa cidade.

O Beco da Quarentena a partir de agora deve ser tomado como um símbolo da resistência cultural em nossa cidade. Graças a nós, artistas e produtores culturais, aquele espaço vive e deve continuar vivendo. Foi bonito ver os natalenses, pela música e pela força do canto, da celebração e da alegria, recuperando um espaço que deve e pode ser nosso, a despeito da incompentência oficial.

É curioso que muita gente diga nos jornais, blogs e entrevistas que “é caótica a situação da cultura em Natal” ou “a prefeitura (ou o estado, ou qualquer uma das fundações culturais) está acabando com a cultura” ou “a cultura na cidade está se acabando”.

Eu afirmo exatamente o contrário. A cultura está aí, pujante e viva. Os artistas – músicos, compositores, artistas plásticos, escritores, bailarinos, atores e outros – estão aí, produzindo, trabalhando, levando o nome do Rio Grande do Norte para outros lugares, atravessando fronteiras. Temos teatro, dança, música, literatura e artes visuais em estado de permanente criação e produção, e isso tudo sem falar na cultura popular, porque os brincantes de todos os naipes continuam na ativa. O que se viu no Beco da Quarentena ontem foi uma prova.

Todo o Circuito Cultural da Ribeira é feito por pessoas como eu e você. É feito com a garra dos artistas/produtores que estão à frente do Centro Cultural DoSol e da Casa da Ribeira, contando com o patrocínio da Conexão Cultural Vivo. Tudo iniciativa privada, essa iniciativa que levou ontem para a Ribeira cerca de 10.000 pessoas, que por lá circularam, distribuindo-se por seus vários espaços, porque tinha programa para todos os gostos, desde peça infantil na Casa da Ribeira até o jazz no Buraco da Catita, passando pelo rock and roll no centro cultural DoSol. Tinha brechó, venda de livros e CDs, projeção de filmes e vídeos, e gente, muita gente bonita, circulando na paz, sem uma briga, sem uma arruaça.

O que vai mal, minha gente, não é a cultura: é a gestão pública na área cultural. O que vai mal é a chamada política cultural, ou a ausência dela. O que vai mal é a atitude dos governantes e gestores em relação à cultura: não sabem o que é, parece que não querem saber e, pior ainda, parece que têm raiva de quem sabe porque não colocam nos cargos as pessoas que realmente são da área e sabem o que estão fazendo.

A Cultura, como a Ribeira, é nossa. Não é do estado, nem do município. É da Cidade, e a Cidade somos nós: você que me lê agora, e eu que escrevo. Pense nisso.

EM TEMPO: Como não queria deixar passar a energia, fiz logo essa postagem, mas não tenho fotos do que aconteceu mesmo porque, no calor e ritmo do cortejo, não tive como fotografar o que acontecia. Mas prometo a você algumas fotos. Aguardo.

Anos Dourados 09/02/2011

Posted by Clotilde Tavares in Sem categoria.
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Esse texto foi escrito há alguns anos. Mas como circulam pela Internet em sites sobre Natal outros textos como o mesmo título e atribuídos a mim, achei por bem publicar aqui aquele que eu realmente escrevi.

Na semana que passou vi uma matéria no RN-TV sobre a decadência que tomou conta da praia dos Artistas. Mostrava a insegurança daquele pedaço, entregue a assaltantes, e a visão triste das meninas prostitutas a desfilar sua tragédia pelas calçadas. A matéria também falava de uma época em que aquele pedacinho de praia era o point mais descolado de Natal. Sei disso, porque vivi essa época.

Os anos dourados da Praia dos Artistas começam mais ou menos em 1975, quando a grande frequência da galera que fazia teatro, artes plásticas e música começou a frequentar aquele pequeno trecho de areia. Por causa exatamente desses frequentadores é que o local terminou ficando conhecido como Praia dos Artistas. A patir das onze horas da manhã, o pedaço começava a se encher de gente. Da Faculdade de Medicina desciam Zizinho, Vac-Hone, Carlos Piru, André de Mello Lima, Napoleão Veras… Mirabô morava ali onde hoje é o Novotel, e na casa dele sempre havia um artista hospedado: numa semana era Alceu, na outra Gonzaguinha, Fagner… Os mais assediados, mais famosos, como Rita Lee, ficavam na granja de Chico Miséria, que também era um dos frequentadores da praia.

Sérgio Dieb fazia artesanato em couro e Kátia Meirelles e Claudinho comandavam uma boutique louquíssima cheia de roupas divinas. Chico Kurroutek, cearense, desfilava seus cachos e bermudões coloridos pelas areias. No barzinho que ficava embaixo do Salva-Vidas, o Caravela, ficavam os surfistas e era uma beleza ver Brás entrar no mar, com seus louros cabelos de viking. Os campeonatos de surf também eram famosos, apresentados ao microfone com muita gíria e loucura por Big Terto (hoje transformado no publicitário Tertuliano Pinheiro), que tinha também um programa na rádio – não lembro qual – em que tocava muito rock.

À noite, nos dividíamos entre o Castanhola e o Asfarn, bares onde comíamos isca de peixe com molho rosé e sempre havia confusão na hora de pagar a conta. No Asfarn, havia uma cadelinha chamada Nuvem, adotada como mascote pela turma: Jácio Fiúza, Tião e Beto Madruga, Reinaldo Cabeçote, Petit das Virgens, Chico Guedes, Renê, Ícaro, Sapinho, Juliano Siqueira, Cacá de Lima, Xêxo, Mororó, Gurgel, e nós, as garotas: Gleide Selma, Cecília e Graça Pinto, Gracinha Ferreira, as irmãs Branca e Kalica, Verinha, Cristina (as duas: a de Piru e a outra, irmã de Carmen), Malu, Graça e Fafinha Arruda… Na eleição de 1976 – se não me engano – nos juntamos todos num mutirão para eleger Sérgio Dieb nosso vereador, o que fizemos, e era uma graça ver Serginho usando paletó e gravata, dizendo “Vossa Excelência podes crer…”

Eram dias e noites de muita criação. Poesia, literatura, teatro, música, cada um naquilo que sabia fazer. Tudo isso ao som de Belchior (“Eu sou apenas um rapaz…”), Fagner (“Ave noturna”), Ellis Regina (“Como nossos pais”), João Bosco (“Transversal do tempo”), Gonzaguinha (“Doidivanas”), Milton Nascimento (“Paula e Bebeto”) e Chico Buarque (“Meus caros amigos”). Bebíamos qualquer coisa que contivesse álcool e os nossos vestidos eram bordados de lantejoulas. Os rapazes (com exceção dos que faziam política) usavam camisas floridas e cabelos enormes e passávamos a noite de bar em bar. Às vezes, a violência da ditadura descia o seu punho selvagem sobre nós, e os tiras entravam nos bares, ameaçavam todo mundo, derramavam no chão o conteúdo de nossas bolsas. Mas na maioria das noites tudo era curtição na República Independente da Praia dos Artistas onde amanhecíamos o dia e muitas vezes subíamos direto para a Faculdade, onde tentávamos assistir às aulas, mortinhos de sono.

Em noite memorável, arrastamos o poeta e escritor pernambucano Jomard Muniz de Britto numa dessas maratonas e ele, encantado com as nossas loucuras, pronunciou a frase que ficou famosa: “Natal é a Londres nordestina!” Naquela época, poeta, era mesmo. Vinte e cinco anos atrás, numa Natal muito menor do que hoje, fazíamos moda e estabelecíamos atitudes. Daquele núcleo de gente maluca surgiu a Banda Gália, que revolucionou o Carnaval de rua na cidade e que também fez história, em época posterior.

Mas o movimento da vida é esse mesmo, e como diz João Bosco na música memorável não podemos ficar “parados dentro dum táxi, numa transversal do tempo”. Mudamos, evoluímos, crescemos, ficamos mais velhos e hoje somos empresários, profissionais liberais, políticos e, é claro, artistas. Alguns já se foram: Sergio Dieb, Chico Miséria, André de Mello Lima, Malu Aguiar…

Não podemos mais viver aquela época, que pertence ao passado. O que dá tristeza é ver aquele belo pedaço de praia, que foi palco de um momento de intensa efervescência cultural para a cidade entregue ao abandono e ao descaso. No nome da praia – Artistas – está a sua vocação e seu destino. Talvez com um centro de Artes e um pequeno espaço para shows e espetáculos de teatro – um teatro de bolso, com uns 100 lugares – a Praia dos Artistas poderia ser conduzida de volta ao seu clima original. Fica o recado para os donos do poder e do dinheiro que, quando querem, podem e pagam.

Capim Macio pede socorro! 03/01/2011

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O link para este video rodou hoje no twitter.

Na praça da “árvore” 02/01/2011

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Fui ontem na “árvore” de Mirassol.

Eu já havia ido na quinta-feira passada ver o show da Banda Camarones Orquestra Guitarrística, na qual a minha filha toca. Nessa noite de quinta me diverti muito, encontrei amigos, e vi algumas coisas interessantes na feira de “artesanato” que não comprei por estar mais interessada no bate-papo com gente conhecida. Aí, me informei e disseram que a feirinha abria todo dia àss 17 horas.

Eu pensei:

– Volto outro dia.

Aqui, um elogio ao ecletismo da programação musical, que abarcou todos os estilos. Na noite em que estive lá vi uma banda de percussão da vila de Ponta Negra, depois a cantora Ana Fernandez com música regional animada e dançante, a seguir o show da banda Camarones – puro rock – e em seguida um grupo de samba e pagode. É legal isso, porque atrai públicos variados e atende a todos os gostos. Também me informaram que tudo termina às dez horas da noite, para não incomodar a vizinhança – aí eu tenho dúvidas, porque som alto incomoda a qualquer hora, mas esse é outro assunto.

Pois bem: voltei ontem, dia 1º de janeiro, para comprar as tais coisinhas de que gostei. Cheguei na feirinha às 17h30 e menos da metade das banquinhas estavam funcionando. A parte central do prédio estava fechada. As artesãs reclamavam porque não tinham onde sentar, uma vez que o contrato de locação das cadeiras – segundo elas – havia terminado em 31/12 e o dono havia levado as cadeiras de volta. A maioria estava em pé, muitas delas idosas; e as que estavam sentadas era porque haviam “escondido” as cadeiras na noite anterior, já desconfiando que elas iriam ser recolhidas. A feirinha vai até 6 de janeiro.

Não encontrei o que queria comprar, e que me chamou atenção na primeira visita. E aqui a explicação de haver escrito “artesanato” entre aspas em parágrafo anterior: havia pouco artesanato. A maioria era aquilo que chamamos de “Habilidades Manuais”: crochê, bordado, pintura em tecido, macramê, representando cerca de 90% dos artigos expostos.

Fiquei imaginando onde foi parar todo o rico artesanato do Rio Grande do Norte, os trabalhos em barro, a cestaria em palha de carnaúba, as redes, o labirinto, a renascença, o maravilhoso bordado do Seridó.

Na Paraíba há um trabalho espetacular que foi iniciado no governo Cássio: “A Paraíba em Suas Mãos”, programa estadual de incentivo, apoio e profissionalização dos artesãos, feito junto com o Sebrae, que chegou a ganhar o Prêmio Cultura Viva em 2007. Por que a gente não podia ter algo semelhante aqui?

Enquanto caminhava, me deu fome. Procurei algum lugar para comer uma tapioca, ou um filhó, ou um cuscuz. Só tinha sanduíches, crepes, pizza, hot-dogs e espetinhos comeu-morreu, acompanhados de refrigerante.

Para concluir o assunto “árvore”, enquanto zanzava por ali escutei um barulho de água corrente. Depois de andar pra lá e pra cá, descobri que em volta da árvore, acompanhando todo aquele perímetro circular, onde tem a iluminação esverdeada, havia uma vala de uns 80 cm de largura onde corria uma água sobre um leito de brita, alimentada por um bicos que jorravam água a uns 20 cm de altura.

Como não entendi a função daquilo, andei até que encontrei um funcionário uniformizado que me explicou que: aquilo era para jorrar mais alto, uns dois metros, talvez, e completar “o enfeite da árvore”; que o sistema incluía cerca de 200 bicos para jorrar água, a um metro um do outro; que “a população havia roubado cerca de 40 bicos”, obrigando a diminuir o fluxo da água, que ficou sem pressão e não fazia o jorro alcançar a altura adequada; que toda aquela água não era desperdiçada, pois ia para a bomba e voltava para o sistema (menos mal, digo eu). O que está entre aspas são as palavras do funcionário.

Ele disse ainda que é um absurdo que a população roube o deprede o que não é dela, o que é de todos.

Aí eu falei:

– Mas não será que fazem isso porque se miram no exemplo dos políticos que também roubam e depredam o que não é deles, o que é do povo?

Ele, prudente, sem saber quem eu era, talvez pensando em garantir o emprego, sem querer criticar os políticos, olhou pra mim e filosofou:

– Olhe, dona: ladrão existe desde o tempo de Jesus, que morreu com um de cada lado…

Concordei com ele, refleti que hoje-em-dia tem um de cada lado e mais uns duzentos em volta e, sob as luzes da “árvore”, ouvindo o ruído das águas correntes, despedi-me e achei o caminho de volta para casa.

Natal, a noiva do sol 16/07/2010

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Ponta Negra, Natal/RN. Foto de Hugo Macedo.

CONGÊNITO

Poema de Plínio Sanderson.

nas minhas veias não corre sangue, não.

transmuta átomos desse chão

que me acolhe e na profundeza do tempo me devorará.

nas minhas artérias transitam esquinas,

ruas e becos envolto num plasma de lama

e transeuntes tresloucados.

quando piso tua superfície na crosta terrestre

transpiro a totalidade do universo nesse afago.

como se nesse ponto ínfimo o planeta bastasse..

aqui, levito absorto entre problemas e prazeres cotidianos.

alhures, sou adereço nas paisagens.

lugares carecem de significâncias,

simbiose entre o genius loci  e a ânima humana.

por outras paragens, em plagas temperadas,

desafiando o inclemente inverno,

a estrela solar nunca me abandonou, amuleto de luz.

noiva do sol te peço em matrimônio perpetuo,

com velada  licença de ir além

de tuas formas, teus fronts, de quando em vez….

para perambular em transumâncias aleatórias..

tendo como zênite eterno o teu umbigo,

envolto nas dunas de sutil fragrância

emoldurado pelo infindo atlântico.

Engenho Guaporé: memória despedaçada 18/04/2010

Posted by Clotilde Tavares in Denúncia.
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Engenho Guaporé. Foto de Roberto Satoli.

Eu preferia não ter lido hoje – domingo – no Novo Jornal, a matéria que dá conta do abandono do Engenho Guaporé, em Ceará Mirim. Preferia não ter lido porque toda vez que leio uma notícia dessas de abandono ou depredação de um bem cultural que serve de marco para a nossa memória, eu fico mais um pouco decepcionada não com o mundo, mas com as pessoas que se dizem à frente dos destinos desta terra.

Não me interessa se é Fundação José Augusto ou Capitania das Artes, se é Governo do Estado ou Prefeitura do Município. O que interessa é que quem devia fazer, não faz. E não aceito desculpas de orçamento baixo, de que a maior parte da verba vai para a folha de pessoal ou o que seja.

Para essas coisas não devia faltar dinheiro.

Ora, se sobra dinheiro para a falcatrua, o roubo, os não-sei-que dutos cujos relatos estão na página política dos jornais – mas que deveriam estar era nas páginas policiais – se sobra dinheiro para a propina, para a corrupção, para gratificar aos apaniguados, para empregar os correligionários, para que os poderosos façam suas viagens em comitiva pra lá e pra cá, levando deus-e-o-mundo, parentes e aderentes, massagista e cabeleireiro, cachorro e papagaio, não devia faltar dinheiro para manter e conservar aquilo que constitui o patrimônio cultural e a memória viva do povo do Rio Grande do Norte.

É a cultura que salva o homem, e não a política. É a cultura que dá sentido à nossa existência sobre a terra, e não a política.

“Vergonha alheia”, é o que sinto em relação aos governantes do meu estado quando leio uma notícia dessas.

Veja mais aqui.

A eternidade do poder 01/04/2010

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Leio no blog de Ricardo Rosado uma frase “O poder é efêmero…” atribuída à governadora – agora ex-gove – do Rio Grande do Norte em pronunciamento recente.

Mas eu penso diferente.

O poder pode ser efêmero para a pessoa que o está exercendo naquela hora. Foi isso talvez que a professora Wilma de Faria quis dizer. Para quem está ali, a situação de poder passa, é efêmera, é transitória.

Mas o poder, enquanto exercício relacional dos governantes com a sociedade, esse é muito mais consistente.

Mudam os agentes, os nomes, mas o poder e a forma de exercê-lo parecem tão eternos e sólidos como os blocos de pedras das pirâmides.

A cada um que sai, entra outro com os mesmos costumes, a mesma ânsia, a mesma voracidade, a mema sede que nada nada nada consegue saciar.

Placas pra que te quero 31/03/2010

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Muito se tem falado nas inaugurações feitas no ocaso da gestão da Governadora. Dizem que são inauguradas somente as placas.

Eu andei no twitter comentando sobre uma das placas, cuja foto rodou nas listas de discussão.

Nela, duas coisas graves. Primeiro, o excesso de vírgulas. As que colocaram depois de “neste local” e depois de “esta cidade”, nenhuma delas é necessária.

Segundo, o fato do “presente”. Só é presente se for com a grana pessoal da Governadora. Se foi com dinheiro público, não pode ser caracterizada dessa forma.

Penso que os xeleléus que mandaram fazer a placa não pensaram nisso.

Sandoval Wanderley e seu teatro 28/03/2010

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No Dia Mundial do Teatro, que foi ontem, eu, que milito nessa área há exatos 51 anos, não tive alegria de comemorar.

Isso porque nesta nossa cidade Natal, esta bela noiva do Sol decantada por Cascudo, o mesmo dia trouxe manchetes de interdição de um teatro, o Teatro Sandoval Wanderley, por falta de condições de funcionamento.

A Revista Catorze está com um texto que conta a história do teatro e a história de Sandoval, para o qual lhe remeto.

Mas eu quero aqui, como uma homenagem, evocar a memória de Sandoval Wanderley, porque eu o conheci e convivi com ele e porque apesar de dar nome ao teatro do centro do Alecrim, não é muito conhecido pelas geraçoões atuais.

Nascido em Assu, em 1893, Sandoval Wanderley sempre esteve ligado ao teatro, participando de vários grupos e fundador do Conjunto Teatral Potiguar (1941) e do Teatro de Amadores de Natal (1951).

Começou como ator nos grupos amadores da cidade mas logo depois passou a dirigir seus próprios espetáculos. Sandoval escrevia, dirigia, escolhia o figurino, os cenários e ensaiava os atores. No seu pequeno Teatro, nos altos de uma casa numa esquina da rua Voluntários da Pátria foi onde eu o conheci, no ano de 1970.

Ele emprestava o espaço para os nossos ensaios e aprendemos todos, muito jovens e anárquicos que éramos, a respeitar sua figura pequena, magra, mas sempre irrepreensivelmente vestido, de terno escuro e gravata, fosse qual fosse a hora do dia.

Lembro-me de uma vez que fui com ele a uma das grandes lojas da cidade, para comprar os tecidos dos figurinos das “suas” atrizes, como ele dizia, só aceitando artigos da melhor qualidade. Ao caminhar comigo pela rua, oferecia-me o braço, e dizia que era uma honra andar pela cidade ao lado de uma mulher bonita. Sandoval era assim: galanteador, cavalheiresco e eu, uma estudante faminta e vestida de qualquer maneira, me sentia especial andando ao seu lado pelas ruas da cidade.

Racine Santos, que é um estudioso da sua obra, registrou 31 peças escritas por ele; mas sabe-se que escreveu muito mais. Ainda segundo Racine Santos, Sandoval Wanderley “…alcançou seus melhores momentos na comédia. (…) uma carpintaria ágil, domínio exato do tempo e um diálogo coloquial e espontâneo constituíam o segredo de suas comédias.”

Morreu em 1972, aos 79 anos, e fez teatro enquanto aguentou, enquanto a doença não o impediu. Sandoval Wanderley deixou um espaço impreenchível no teatro desta cidade e uma grande saudade no coração dos que o conheceram.

O tetaro que leva seu nome está interditado porque não tem manutenção. Vai se estragando, vai caindo, e ninguém liga, porque nesta terra ninguém respeita a cultura, os governantes não se importam, só querem saber de ficar bem na fita – ou nos vídeos – que são veiculados na TV até à exaustão.

Inauguram placas, e deixam as construções que já esxistem tombarem sob as picaretas da insensibilidade, da incúria administrativa, da falta de compromisso com a cultura.

É por isso que eu não tive vontade de ir para a festa que fizeram lá na Casa da Ribeira. Achei melhor ficar aqui e escrever este post.