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Anos Dourados 09/02/2011

Posted by Clotilde Tavares in Sem categoria.
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Esse texto foi escrito há alguns anos. Mas como circulam pela Internet em sites sobre Natal outros textos como o mesmo título e atribuídos a mim, achei por bem publicar aqui aquele que eu realmente escrevi.

Na semana que passou vi uma matéria no RN-TV sobre a decadência que tomou conta da praia dos Artistas. Mostrava a insegurança daquele pedaço, entregue a assaltantes, e a visão triste das meninas prostitutas a desfilar sua tragédia pelas calçadas. A matéria também falava de uma época em que aquele pedacinho de praia era o point mais descolado de Natal. Sei disso, porque vivi essa época.

Os anos dourados da Praia dos Artistas começam mais ou menos em 1975, quando a grande frequência da galera que fazia teatro, artes plásticas e música começou a frequentar aquele pequeno trecho de areia. Por causa exatamente desses frequentadores é que o local terminou ficando conhecido como Praia dos Artistas. A patir das onze horas da manhã, o pedaço começava a se encher de gente. Da Faculdade de Medicina desciam Zizinho, Vac-Hone, Carlos Piru, André de Mello Lima, Napoleão Veras… Mirabô morava ali onde hoje é o Novotel, e na casa dele sempre havia um artista hospedado: numa semana era Alceu, na outra Gonzaguinha, Fagner… Os mais assediados, mais famosos, como Rita Lee, ficavam na granja de Chico Miséria, que também era um dos frequentadores da praia.

Sérgio Dieb fazia artesanato em couro e Kátia Meirelles e Claudinho comandavam uma boutique louquíssima cheia de roupas divinas. Chico Kurroutek, cearense, desfilava seus cachos e bermudões coloridos pelas areias. No barzinho que ficava embaixo do Salva-Vidas, o Caravela, ficavam os surfistas e era uma beleza ver Brás entrar no mar, com seus louros cabelos de viking. Os campeonatos de surf também eram famosos, apresentados ao microfone com muita gíria e loucura por Big Terto (hoje transformado no publicitário Tertuliano Pinheiro), que tinha também um programa na rádio – não lembro qual – em que tocava muito rock.

À noite, nos dividíamos entre o Castanhola e o Asfarn, bares onde comíamos isca de peixe com molho rosé e sempre havia confusão na hora de pagar a conta. No Asfarn, havia uma cadelinha chamada Nuvem, adotada como mascote pela turma: Jácio Fiúza, Tião e Beto Madruga, Reinaldo Cabeçote, Petit das Virgens, Chico Guedes, Renê, Ícaro, Sapinho, Juliano Siqueira, Cacá de Lima, Xêxo, Mororó, Gurgel, e nós, as garotas: Gleide Selma, Cecília e Graça Pinto, Gracinha Ferreira, as irmãs Branca e Kalica, Verinha, Cristina (as duas: a de Piru e a outra, irmã de Carmen), Malu, Graça e Fafinha Arruda… Na eleição de 1976 – se não me engano – nos juntamos todos num mutirão para eleger Sérgio Dieb nosso vereador, o que fizemos, e era uma graça ver Serginho usando paletó e gravata, dizendo “Vossa Excelência podes crer…”

Eram dias e noites de muita criação. Poesia, literatura, teatro, música, cada um naquilo que sabia fazer. Tudo isso ao som de Belchior (“Eu sou apenas um rapaz…”), Fagner (“Ave noturna”), Ellis Regina (“Como nossos pais”), João Bosco (“Transversal do tempo”), Gonzaguinha (“Doidivanas”), Milton Nascimento (“Paula e Bebeto”) e Chico Buarque (“Meus caros amigos”). Bebíamos qualquer coisa que contivesse álcool e os nossos vestidos eram bordados de lantejoulas. Os rapazes (com exceção dos que faziam política) usavam camisas floridas e cabelos enormes e passávamos a noite de bar em bar. Às vezes, a violência da ditadura descia o seu punho selvagem sobre nós, e os tiras entravam nos bares, ameaçavam todo mundo, derramavam no chão o conteúdo de nossas bolsas. Mas na maioria das noites tudo era curtição na República Independente da Praia dos Artistas onde amanhecíamos o dia e muitas vezes subíamos direto para a Faculdade, onde tentávamos assistir às aulas, mortinhos de sono.

Em noite memorável, arrastamos o poeta e escritor pernambucano Jomard Muniz de Britto numa dessas maratonas e ele, encantado com as nossas loucuras, pronunciou a frase que ficou famosa: “Natal é a Londres nordestina!” Naquela época, poeta, era mesmo. Vinte e cinco anos atrás, numa Natal muito menor do que hoje, fazíamos moda e estabelecíamos atitudes. Daquele núcleo de gente maluca surgiu a Banda Gália, que revolucionou o Carnaval de rua na cidade e que também fez história, em época posterior.

Mas o movimento da vida é esse mesmo, e como diz João Bosco na música memorável não podemos ficar “parados dentro dum táxi, numa transversal do tempo”. Mudamos, evoluímos, crescemos, ficamos mais velhos e hoje somos empresários, profissionais liberais, políticos e, é claro, artistas. Alguns já se foram: Sergio Dieb, Chico Miséria, André de Mello Lima, Malu Aguiar…

Não podemos mais viver aquela época, que pertence ao passado. O que dá tristeza é ver aquele belo pedaço de praia, que foi palco de um momento de intensa efervescência cultural para a cidade entregue ao abandono e ao descaso. No nome da praia – Artistas – está a sua vocação e seu destino. Talvez com um centro de Artes e um pequeno espaço para shows e espetáculos de teatro – um teatro de bolso, com uns 100 lugares – a Praia dos Artistas poderia ser conduzida de volta ao seu clima original. Fica o recado para os donos do poder e do dinheiro que, quando querem, podem e pagam.

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Comentários»

1. soraia - 09/02/2011

Concordo com você: “no nome da praia – Artistas – está a sua vocação e seu destino”. Sobram descaso das sucessivas administrações e indiferença da sociedade. Também vivi parte da minha adolescência nas subidas e descidas da ladeira do sol… deixemos o passado no passado. Concordo. Mas, há muito que lamentar com o abandono da praia (em dezembro estive com uma turma em um restaurante na Ponta do Morcego e o tema do seu texto dominou o nosso jantar).

2. Tweets that mention Anos Dourados « Natal, a noiva do Sol -- Topsy.com - 09/02/2011

[…] This post was mentioned on Twitter by Clotilde Tavares and Victória Sant'Ana , Soraia Vidal. Soraia Vidal said: Leia o texto de @ClotildeTavares e não fique indiferente aos "estragos" na Praia dos Artistas: http://bit.ly/eAdqSy […]

3. Esso A. - 18/05/2011

Clotilde,
estou há algum tempo fazendo uma série de entrevistas com depoimentos que comporão um livro que estou escrevendo sobre a cena roqueira da cidade. Gostaria de tê-la entre os entrevistados.
Se der.


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