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Na praça da “árvore” 02/01/2011

Posted by Clotilde Tavares in Denúncia.
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Fui ontem na “árvore” de Mirassol.

Eu já havia ido na quinta-feira passada ver o show da Banda Camarones Orquestra Guitarrística, na qual a minha filha toca. Nessa noite de quinta me diverti muito, encontrei amigos, e vi algumas coisas interessantes na feira de “artesanato” que não comprei por estar mais interessada no bate-papo com gente conhecida. Aí, me informei e disseram que a feirinha abria todo dia àss 17 horas.

Eu pensei:

– Volto outro dia.

Aqui, um elogio ao ecletismo da programação musical, que abarcou todos os estilos. Na noite em que estive lá vi uma banda de percussão da vila de Ponta Negra, depois a cantora Ana Fernandez com música regional animada e dançante, a seguir o show da banda Camarones – puro rock – e em seguida um grupo de samba e pagode. É legal isso, porque atrai públicos variados e atende a todos os gostos. Também me informaram que tudo termina às dez horas da noite, para não incomodar a vizinhança – aí eu tenho dúvidas, porque som alto incomoda a qualquer hora, mas esse é outro assunto.

Pois bem: voltei ontem, dia 1º de janeiro, para comprar as tais coisinhas de que gostei. Cheguei na feirinha às 17h30 e menos da metade das banquinhas estavam funcionando. A parte central do prédio estava fechada. As artesãs reclamavam porque não tinham onde sentar, uma vez que o contrato de locação das cadeiras – segundo elas – havia terminado em 31/12 e o dono havia levado as cadeiras de volta. A maioria estava em pé, muitas delas idosas; e as que estavam sentadas era porque haviam “escondido” as cadeiras na noite anterior, já desconfiando que elas iriam ser recolhidas. A feirinha vai até 6 de janeiro.

Não encontrei o que queria comprar, e que me chamou atenção na primeira visita. E aqui a explicação de haver escrito “artesanato” entre aspas em parágrafo anterior: havia pouco artesanato. A maioria era aquilo que chamamos de “Habilidades Manuais”: crochê, bordado, pintura em tecido, macramê, representando cerca de 90% dos artigos expostos.

Fiquei imaginando onde foi parar todo o rico artesanato do Rio Grande do Norte, os trabalhos em barro, a cestaria em palha de carnaúba, as redes, o labirinto, a renascença, o maravilhoso bordado do Seridó.

Na Paraíba há um trabalho espetacular que foi iniciado no governo Cássio: “A Paraíba em Suas Mãos”, programa estadual de incentivo, apoio e profissionalização dos artesãos, feito junto com o Sebrae, que chegou a ganhar o Prêmio Cultura Viva em 2007. Por que a gente não podia ter algo semelhante aqui?

Enquanto caminhava, me deu fome. Procurei algum lugar para comer uma tapioca, ou um filhó, ou um cuscuz. Só tinha sanduíches, crepes, pizza, hot-dogs e espetinhos comeu-morreu, acompanhados de refrigerante.

Para concluir o assunto “árvore”, enquanto zanzava por ali escutei um barulho de água corrente. Depois de andar pra lá e pra cá, descobri que em volta da árvore, acompanhando todo aquele perímetro circular, onde tem a iluminação esverdeada, havia uma vala de uns 80 cm de largura onde corria uma água sobre um leito de brita, alimentada por um bicos que jorravam água a uns 20 cm de altura.

Como não entendi a função daquilo, andei até que encontrei um funcionário uniformizado que me explicou que: aquilo era para jorrar mais alto, uns dois metros, talvez, e completar “o enfeite da árvore”; que o sistema incluía cerca de 200 bicos para jorrar água, a um metro um do outro; que “a população havia roubado cerca de 40 bicos”, obrigando a diminuir o fluxo da água, que ficou sem pressão e não fazia o jorro alcançar a altura adequada; que toda aquela água não era desperdiçada, pois ia para a bomba e voltava para o sistema (menos mal, digo eu). O que está entre aspas são as palavras do funcionário.

Ele disse ainda que é um absurdo que a população roube o deprede o que não é dela, o que é de todos.

Aí eu falei:

– Mas não será que fazem isso porque se miram no exemplo dos políticos que também roubam e depredam o que não é deles, o que é do povo?

Ele, prudente, sem saber quem eu era, talvez pensando em garantir o emprego, sem querer criticar os políticos, olhou pra mim e filosofou:

– Olhe, dona: ladrão existe desde o tempo de Jesus, que morreu com um de cada lado…

Concordei com ele, refleti que hoje-em-dia tem um de cada lado e mais uns duzentos em volta e, sob as luzes da “árvore”, ouvindo o ruído das águas correntes, despedi-me e achei o caminho de volta para casa.