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Sandoval Wanderley e seu teatro 28/03/2010

Posted by Clotilde Tavares in Denúncia.
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No Dia Mundial do Teatro, que foi ontem, eu, que milito nessa área há exatos 51 anos, não tive alegria de comemorar.

Isso porque nesta nossa cidade Natal, esta bela noiva do Sol decantada por Cascudo, o mesmo dia trouxe manchetes de interdição de um teatro, o Teatro Sandoval Wanderley, por falta de condições de funcionamento.

A Revista Catorze está com um texto que conta a história do teatro e a história de Sandoval, para o qual lhe remeto.

Mas eu quero aqui, como uma homenagem, evocar a memória de Sandoval Wanderley, porque eu o conheci e convivi com ele e porque apesar de dar nome ao teatro do centro do Alecrim, não é muito conhecido pelas geraçoões atuais.

Nascido em Assu, em 1893, Sandoval Wanderley sempre esteve ligado ao teatro, participando de vários grupos e fundador do Conjunto Teatral Potiguar (1941) e do Teatro de Amadores de Natal (1951).

Começou como ator nos grupos amadores da cidade mas logo depois passou a dirigir seus próprios espetáculos. Sandoval escrevia, dirigia, escolhia o figurino, os cenários e ensaiava os atores. No seu pequeno Teatro, nos altos de uma casa numa esquina da rua Voluntários da Pátria foi onde eu o conheci, no ano de 1970.

Ele emprestava o espaço para os nossos ensaios e aprendemos todos, muito jovens e anárquicos que éramos, a respeitar sua figura pequena, magra, mas sempre irrepreensivelmente vestido, de terno escuro e gravata, fosse qual fosse a hora do dia.

Lembro-me de uma vez que fui com ele a uma das grandes lojas da cidade, para comprar os tecidos dos figurinos das “suas” atrizes, como ele dizia, só aceitando artigos da melhor qualidade. Ao caminhar comigo pela rua, oferecia-me o braço, e dizia que era uma honra andar pela cidade ao lado de uma mulher bonita. Sandoval era assim: galanteador, cavalheiresco e eu, uma estudante faminta e vestida de qualquer maneira, me sentia especial andando ao seu lado pelas ruas da cidade.

Racine Santos, que é um estudioso da sua obra, registrou 31 peças escritas por ele; mas sabe-se que escreveu muito mais. Ainda segundo Racine Santos, Sandoval Wanderley “…alcançou seus melhores momentos na comédia. (…) uma carpintaria ágil, domínio exato do tempo e um diálogo coloquial e espontâneo constituíam o segredo de suas comédias.”

Morreu em 1972, aos 79 anos, e fez teatro enquanto aguentou, enquanto a doença não o impediu. Sandoval Wanderley deixou um espaço impreenchível no teatro desta cidade e uma grande saudade no coração dos que o conheceram.

O tetaro que leva seu nome está interditado porque não tem manutenção. Vai se estragando, vai caindo, e ninguém liga, porque nesta terra ninguém respeita a cultura, os governantes não se importam, só querem saber de ficar bem na fita – ou nos vídeos – que são veiculados na TV até à exaustão.

Inauguram placas, e deixam as construções que já esxistem tombarem sob as picaretas da insensibilidade, da incúria administrativa, da falta de compromisso com a cultura.

É por isso que eu não tive vontade de ir para a festa que fizeram lá na Casa da Ribeira. Achei melhor ficar aqui e escrever este post.

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